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29/04/2011 |
Por Paulo Miranda Soares, presidente da Federação
Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes
(Fecombustíveis) |
Caos. Essa é a palavra que resume a situação do mercado de
combustíveis nos últimos meses. Passamos da euforia pela
autossuficiência em petróleo à importação de gasolina; de
fornecedor global a importador de etanol anidro. E estamos
pagando muito caro por isso.
A cadeia de abastecimento brasileira é extremamente complexa e
regulada. Refinarias e usinas produzem gasolina e etanol,
respectivamente. As distribuidoras compram os combustíveis e
revendem aos postos, onde a população abastece seus veículos.
Quem se indigna com o valor praticado na bomba, muitas vezes,
não tem ideia de toda essa cadeia por trás do produto. Não
contribuem também para o entendimento da situação declarações
populistas de diversas autoridades, que não cumpriram sua função
de regular e garantir o bom funcionamento do mercado, e agora
decidem colocar a culpa nos postos.
Por que essas mesmas autoridades não alardeiam que o etanol
anidro, aquele adicionado à gasolina, subiu 182% nas usinas
entre junho de 2010 (quando começou a alta, embora discreta) e
abril de 2011, sem fretes ou impostos, segundo dados do Centro
de Estudos Avançados em Economia (Cepea/USP). Só essa alta
provocou uma elevação de 19% no custo da gasolina, sem levar em
conta outros possíveis impactos tributários ou de margens. No
mesmo período, as distribuidoras venderam gasolina 14,5% mais
cara aos postos, que repassaram majorações de 11,6%, segundo os
preços médios Brasil apurados pela ANP.
Toda semana os postos são comunicados por suas distribuidoras
que o etanol ou a gasolina estão três, cinco, dez centavos mais
caros. O que explica o preço do hidratado ter subido 5,24% nas
usinas, somente na semana passada, apesar da safra ter começado
e do consumo ter diminuído?
Sim, o consumidor está insatisfeito e indignado, como também
estamos nós, donos de postos. Porque todos os dias temos que
explicar aos nossos clientes o motivo de mais uma alta. Porque
todos os dias precisamos decidir se repassamos a elevação, e
perdemos vendas, ou absorvemos o custo maior, e reduzimos ainda
mais nossas margens.
Como falar em preços abusivos nos postos, se o anidro saiu de R$
0,8023, por litro, em junho do ano passado, para R$ 2,726 agora
em abril? Houve distribuidora regional que pagou R$ 3,00 por
litro para não ficar sem anidro. Por que o Ministério Público
não pede as planilhas de custos das usinas para averiguar os
motivos dessa disparada?
Na quinta-feira, a presidenta Dilma Rousseff ampliou em dois
pontos, para 18% a 25%, a banda do anidro na gasolina. Um recado
claro aos usineiros. Na mesma Medida Provisória, o governo
passou à ANP o controle sobre a cadeia do etanol, o que irá
ajudar a combater importantes problemas no setor, como a imensa
sonegação que existe hoje na comercialização deste
biocombustível.
Mas isso não basta. Se o governo realmente decidir reduzir o
percentual de anidro na gasolina, a Petrobras terá que
importá-la e, lá fora, ela está cerca de 20% acima do preço
praticado aqui, e o governo não quer nem pensar em autorizar um
reajuste. Bem ou mal, o elevado preço do anidro, atualmente, é
um problema/custo das distribuidoras, postos e consumidores. Se
importar gasolina mais cara, e o governo não permitir um
reajuste, a Petrobras terá que internalizar esse custo? Na
verdade, sem a ameaça da concorrência da gasolina, os usineiros
sentem-se livres para cobrar o quanto quiserem pelo etanol.
Por fim, gostaria de ver algumas questões respondidas.
1) Prezados usineiros, se os senhores já sabiam estar
descapitalizados desde a crise de 2008, por que continuaram
insistindo para o governo abrir mercados? Atribuir a alta do
produto à explosão da demanda é simplista. Afinal, os números
recordes da Anfavea não permitem a ninguém alegar que foi pego
de surpresa pelo consumo dos veículos flex;
2) Caras distribuidoras, por que não estabeleceram contratos de
longo prazo com as usinas, de forma a garantir preços melhores
(e produto) durante a entressafra, ao invés de preferir apostar
no custo de oportunidade e comprar mais barato de unidades
produtoras em dificuldades financeiras?;
3) Caríssimos Haroldo Lima, diretor-geral da ANP, e Edison
Lobão, ministro de Minas e Energia, as informações das notas
fiscais de aquisição dos postos estão disponíveis no site da
Agência, basta olhar os números. Por que não adotar as mesmas
exigências para as distribuidoras e – agora, com os novos
poderes da ANP - também para as usinas? De forma a termos um
panorama mais real e completo dos custos da cadeia e, assim,
saber quem anda realmente praticando preços abusivos?
Não são perguntas difíceis de responder. Entretanto, é muito
mais fácil dizer que a alta nos preços se deve à especulação nos
postos.
Fonte:
Fecombustíveis
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