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Trabalhadores e empresários divergem sobre
redução de jornada |
A possibilidade de redução da carga de trabalho de 44 para 40
horas semanais foi motivo de divergência entre representantes
dos trabalhadores e do setor produtivo durante comissão geral
sobre o tema, realizada nesta terça-feira pela Câmara. Enquanto
os empresários sugerem uma negociação setorial entre patrões e
empregados, representantes sindicais reivindicaram a aprovação
da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 231/95 para garantir
constitucionalmente o direito à redução de jornada.
A PEC já foi aprovada por uma comissão especial da Câmara e
precisa ser votada em dois turnos pelo Plenário.
O presidente da Câmara, Michel Temer, destacou a importância do
Poder Legislativo no momento em que se debate um tema tão
polêmico. "Estamos vendo as vibrações nos corredores da Câmara,
mas aqui dentro precisamos debater o assunto do ponto de vista
técnico", disse. Temer fez referência aos trabalhadores e
representantes de sindicatos, que lotaram as galerias e as
dependências da Câmara para assistir ao debate. Cerca de mil
manifestantes vieram à Câmara para acompanhar o evento.
Para Temer, o papel do Congresso Nacional será o de filtrar
essas discussões e tentar produzir um entendimento. Apesar das
posições divergentes, o presidente ponderou que tanto os
defensores das 40 horas quanto os das 44 horas pensam no
desenvolvimento do País, e os argumentos de ordem prática devem
prevalecer. "Queremos ouvir os especialistas, com argumentos de
ambas as partes, e transformar este plenário no centro dos
debates sobre temas de importância nacional", disse.
O ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, que participou da
comissão, defendeu a redução da carga de trabalho de 44 para 40
horas semanais e argumentou que a medida não provocará falência
de empresas nem demissão de empregados - como alegam as pessoas
que se opõem à medida -, uma vez que a participação da massa
salarial no custo do produto de uma empresa é de 22%. "A redução
da jornada de trabalho terá impacto de 1,99 ponto percentual
nesse custo, que passaria para 23,99%, praticamente 24%", disse.
Cenário internacional
Lupi argumentou que 40% dos países no mundo adotam a carga média
de 40 horas semanais e, como exemplo de poucos países que
praticam mais que 44 horas, citou a Índia (47 horas), a China
(44,6 horas) e os Estados Unidos (45,5). Por outro lado, lembrou
que o Uruguai tem uma média de 41,6 horas de trabalho por
semana; a Argentina, 41,5 horas; e o Chile, 42,1 horas.
Carlos Lupi lembrou que vários setores da economia nacional têm
jornada de 40 horas, incluindo o serviço público. Já os
telefonistas têm jornada de 6 horas contínuas de trabalho. "As
empresas que praticam as 40 horas melhoram a produtividade do
trabalhador", argumenta o ministro.
O ministro declarou também que existe hoje uma prática abusiva
das horas extras. "Essa prática, além de diminuir o rendimento
do trabalho, tira a vaga de vários outros trabalhadores."
A PEC 231/95, além da redução da carga horária, também prevê a
elevação do valor da hora extra para 75% sobre o da hora normal.
Inflação
Na avaliação de Carlos Lupi, a mudança também não geraria
inflação. "Em um processo da sociedade em que a inflação está
sob controle, não me venham com argumento que pode gerar
inflação. Esse argumento poderia existir em outro momento. O
Brasil tem reserva de 220 bilhões de dólares [cerca de R$ 407
bilhões] e um mercado interno crescente. O equilíbrio do capital
e trabalho é o melhor mecanismo para a sociedade crescer."
Em relação à crise internacional, o ministro disse que o Brasil
gerou em julho 438 mil novos postos de trabalho e deverá gerar
neste ano 1 milhão de novos empregos formais. "No país mais
imponente do mundo, os Estados Unidos, as demissões baixaram de
350 mil para 250 mil. Lá, a imprensa comemorou. Aqui, o Brasil
cresce 438 mil e a mídia diz que é pouco comparado com 2008",
criticou.
Indústria
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI),
deputado Armando Monteiro (PTB-PE), defendeu a manutenção da
jornada legal de 44 horas no Brasil. Segundo ele, os dados do
ministro Carlos Lupi sobre jornadas de trabalho em outros
países, em sua maioria inferiores à do Brasil, dizem respeito à
jornada média, e não à jornada legal. Armando Monteiro ressaltou
que, no Brasil, a jornada média já é inferior, mas não seria
oportuno diminuir a jornada legal obrigatória.
Na indústria, segundo a CNI, 32% dos trabalhadores têm uma
jornada de 40 horas semanais, 30% ficam entre 41 e 44 horas, e
22% estão acima disso, com 45 a 48 horas. Segundo Armando
Monteiro, é possível diminuir a jornada de trabalho por
negociação, sem recorrer a uma medida impositiva. "Não é
possível nivelar todos os empreendimentos e regiões brasileiras.
A redução da jornada é algo que o mundo faz pela via da
negociação, setor a setor. É isso que o bom senso aconselha",
disse.
Por fim, Monteiro disse que não há nenhuma evidência empírica de
que a redução da jornada provoca aumento do número de empregos.
Esse é um dos argumentos mais utilizados a favor da redução, que
Monteiro caracterizou como demagógico. Ele citou pesquisas
feitas em diversos países, inclusive no Brasil (quando a carga
horária foi reduzida de 48 para 44 horas, em 1988), que
demonstraram não haver relação entre a redução da jornada e o
aumento do número de empregos.
Força Sindical
Já o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da
Silva (PDT-SP), defendeu a aprovação da PEC e identificou a alta
carga tributária como o fator de maior impacto negativo no setor
produtivo. "O que quebra uma empresa é o excesso de imposto e
não a redução da jornada de trabalho. De 1988 [ano em que a
jornada passou de 48 para 44 horas] para cá, a produtividade no
Brasil mais que triplicou. O País ganhou mercado e conseguiu até
melhorar salário", disse.
Para o deputado, a redução gerará empregos e, consequentemente,
aumentará o mercado interno. "A negociação feita entre
trabalhadores e empresários neste ano aumentou o salário acima
da inflação, deu 12% para o salário mínimo no meio da crise.
Isso fez com que vocês, empresários, pudessem vender mais."
Paulo Pereira disse ainda que os empresários não querem negociar
e afirmou que já tentou discutir o assunto com o presidente da
CNI, Armando Monteiro, mas não foi atendido.
O vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), José
Lopes Feijó, acrescentou que, em 2007, mais de 4 mil
metalúrgicos vieram a Brasília e entregaram à CNI uma carta de
reivindicações, pedindo o início de uma negociação para a
redução de jornada na indústria. "Nem para dizer não a CNI
respondeu, e agora sugere que seja feita a negociação e não uma
lei para reduzir a jornada. Não podemos fazer um discurso que
não corresponda à prática", criticou.
Em resposta, o presidente da Associação Brasileira da Indústria
Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, disse que o
empresariado quer, sim, negociar.
Íntegra da proposta:
PEC-231/1995
Agência Câmara
Fonte: Abieps
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