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Editorial



Criadores de monstros


Por Ricardo Lisbôa Vianna,
presidente do SINDESTADO-RJ



Talvez uma das reflexões mais difíceis que o Revendedor moderno precise enfrentar seja aquela que diz respeito aos “monstros” que nossa própria categoria vem, involuntariamente, ajudando a criar nos últimos anos.

Monstros? Sim, monstros. Não vislumbro outro nome mais adequado para os infindáveis obstáculos administrativos, financeiros e jurídicos que cada vez mais integram o dia-a-dia do dono de Posto.

Hoje, o Revendedor de Combustíveis honesto e estabelecido em solo brasileiro passa a maior parte do tempo deslindando infindáveis legislações e regulamentações fiscais, ambientais, trabalhistas e de proteção ao consumidor. Deslindando e gastando, é bom que se diga, porque praticamente todas as “novidades” que nos são impostas a cada instante exigem desembolsos maiores ou menores mas, de qualquer forma, desembolsos. É muito provável que não exista atualmente, em nosso país, um setor mais rigidamente vigiado, auditado e especificado que o nosso. Precisamos comprovar, justificar, atestar, documentar cada mínimo passo que damos. Somos vistos pelas autoridades não como empresários, geradores de empregos e recolhedores de impostos, mas como criminosos perigosíssimos, que precisam ser seguidos o tempo todo, dia e noite.

A origem do cenário atual remonta aos primeiros tempos pós-desregulamentação do mercado de combustíveis. Como é de conhecimento geral, naquele momento histórico ocorreu uma verdadeira erupção de crimes e irregularidades na comercialização de combustíveis, nos mais variados níveis, tais como a adulteração de produtos e a sonegação de impostos. Viriam se somar ao caldeirão de problemas, também, inúmeras situações de guerras de preços; pressão verticalizante das Companhias; tratamentos desiguais, pelas distribuidoras, para Revendedores de uma mesma bandeira e uma mesma área de atuação, etc.

Como se não fosse o bastante, em decorrência de tudo isso a nossa categoria passou a ser o alvo preferido para ataques por parte de setores da Imprensa. Tornou-se o “suspeito habitual” de todo e qualquer problema possível e imaginável, mesmo que muitas vezes em assuntos que nada tinham a ver com a comercialização de combustíveis. Virou alvo fácil, também, para ações demagógicas, originadas de políticos mais interessados no foco dos holofotes da mídia.

Em meio a tudo isso, preocupados com nossa sobrevivência comercial e almejando estabelecer um mínimo de ordem em nosso mercado, nós, Revendedores, em todo o país fomos aceitando (e muitas vezes pedindo) mais e mais regulamentações, fiscalizações, leis e exigências. Todos nós pensamos, equivocadamente, que agindo assim estaríamos trazendo nosso mundo de volta à tranqüilidade.

Foi um engano e tanto. Com a melhor das intenções, contribuímos para a construção de um autêntico paradoxo: hoje, “após-desregulamentação”, a Revenda vive mais regulamentada do que jamais esteve — e a um custo crescente que, para muitos, se ainda não acabou, acabará levando ao encerramento, por completo, das atividades comerciais. Causa mortis: “soterramento por legislações e fiscalizações”.

Precisamos refletir a respeito, e exigir um basta imediato nessa tendência.





[Editorial da Edição nº 90 do JORNAL DO SINDESTADO-RJ]

 


 
     
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