Fantasma da
verticalização assombra debate sobre Posto Escola
Em audiência pública na
sede da ANP, parlamentares, revendedores e frentistas protestam
contra intenções das distribuidoras
Júlio Vasco
O fantasma da verticalização continua fazendo
das suas no setor de combustíveis, como bem pôde comprovar quem
esteve na audiência pública sobre a atividade de Posto Escola
(PE) realizada pela ANP em 25 de maio. O evento ocorreu como
seqüência da série de procedimentos iniciada no final de 2004
visando à regulamentação dos PEs. A primeira etapa foi de
consulta pública. Em seguida veio a audiência propriamente dita,
para coleta de sugestões e opiniões — que serão, a partir de
então, encaminhadas à diretoria colegiada da ANP para decisão
final.
Participaram da audiência pública, dentre outros, os deputados
federais Simão Sessim, Dr. Heleno e Jandira Feghali; o
ex-deputado e atual vereador Ricardo Maranhão; o procurador
federal Antônio José Molina; pela ANP, o diretor Vítor Martins e
os superintendentes Jefferson Paranhos (de Fiscalização do
Abastecimento) e Roberto Furian Ardenghy (de Abastecimento);
pela Revenda, o advogado Leonardo Canabrava e o
diretor-executivo da Fecombustíveis, Luís Felipe Lopes de Souza,
além de representantes das distribuidoras, como o diretor do
Sindicom, Alísio Vaz, e dos trabalhadores, como Eusébio Pinto,
da Federação Nacional dos Empregados de Postos Revendedores.
A ANP iniciou os trabalhos com o anúncio dos termos constantes
da proposta sobre regulamentação da atividade dos Postos Escola,
abrindo então para as falas dos inscritos.
Funcionário de carreira da Petrobras e profundo conhecedor da
realidade do mercado brasileiro de combustíveis (quando deputado
federal, foi membro da Comissão de Minas e Energia), o vereador
Ricardo Maranhão colocou-se “absolutamente contrário” à
investida das distribuidoras sobre os Postos Escola. Maranhão
destacou a situação do Posto Escola do Senac, no Rio, que há
quatro décadas funciona sem causar qualquer turbulência ao
mercado. Tendo deixado o Senac à parte, foi duro nas críticas.
“Os PEs atualmente existentes no Brasil, ressalvadas as exceções
que confirmam a regra, são entidades de fachada, operadas por
‘laranjas’ cujo objetivo é aniquilar a Revenda – e isto nós não
podemos tolerar”, disparou. “Não convém ao mercado nem à
democracia a verticalização que o conceito distorcido de Posto
Escola pode provocar, pois a verticalização é a concentração,
maior ainda, de poder econômico numa sociedade profundamente
desigual como a brasileira”, completou.
Não pode ser biombo
Maranhão defendeu que os PEs sejam implantados em número
estritamente necessário, e que sejam operados exclusivamente por
entidades de ensino profissionalizante, reconhecidas pelos
ministérios do Trabalho e da Educação. “A Lei do Petróleo é
muito clara quando diz que as Distribuidoras não podem operar
Postos. Além disso, não há sentido em as Companhias formarem
frentistas, uma vez que elas não têm frentistas em seus
quadros”, lembrou Ricardo Maranhão, frisando não aceitar que a
formação de mão-de-obra profissional seja biombo para a
concorrência entre as grandes distribuidoras e os pequenos
Revendedores, responsáveis por cerca de 300 mil empregos em todo
o Brasil. “Há um ditado que ensina que, entre o forte e o fraco,
a liberdade escraviza, e a lei liberta”, disse Maranhão,
ressaltando que a própria existência de um órgão regulador (no
caso, a ANP) é sinal de que o mercado não consegue se
auto-regular.
Membro da Comissão de Minas e Energia da Câmara, o deputado
federal Dr. Heleno também questionou diversos aspectos, como por
exemplo se haveria instalações adequadas para aulas na
totalidade dos PEs, assim como presença constante de instrutores
para os frentistas.
Representando a Fecombustíveis, o advogado Leonardo Canabrava
listou algumas das preocupações da Revenda quanto ao tema. “O
Posto Escola pode se converter numa burla à norma que impede a
atividade de Revenda pelas Companhias”, alertou Canabrava,
frisando que o PE não deve ser um agente econômico (ele é uma
instituição para treinamento de mão-de-obra e desenvolvimento de
tecnologia, não devendo se transformar, mediante facilidades,
num agente que possa concorrer deslealmente com os agentes
econômicos estabelecidos). Outra preocupação lembrada pelo
advogado foi o pagamento de salários versus bolsas.
Três níveis de educadores
Dentre diversas sugestões para evitar as distorções,
Leonardo Canabrava disse ser necessário estabelecer um mecanismo
a posteriori para verificar o ingresso dos formados no mercado
de trabalho – se está ocorrendo, e em quais condições e
proporções. “Afinal, a carência de modo serve de justificativa
para a existência do PE”, argumentou. Ele sugeriu ainda que os
PEs tenham três níveis de docência: um supervisor (um educador
ligado à instituição de ensino), que compareceria ao menos uma
vez por semana ao Posto; um instrutor, e um monitor. Instrutor e
treinandos ficariam no Posto durante todo o período de
funcionamento do PE. “Esperamos chegar a uma solução que consiga
conciliar a regra, que impede a verticalização, com a
necessidade de treinamento de mão-de-obra e desenvolvimento
tecnológico, razões de existir dos Postos Escola”, arrematou
Canabrava.
Sem necessidade
Lembrando ao auditório que além da Lei 9478 a própria
Constituição Federal, em seu artigo 238, faz a distinção clara
entre Revenda e Distribuição, o diretor-executivo da
Fecombustíveis, Luiz Felipe Lopes de Sousa, abordou o impasse
com argumentação matemática. “Considerando-se que atualmente o
Estado do Rio de Janeiro tenha exatos 2.000 Postos, e
mantendo-se a média nacional de dez empregados por posto,
teríamos 20.000 empregados na Revenda em nosso Estado”, projetou
Luís Felipe. “Considerando-se, ainda, que estatisticamente o
rodízio de mão-de-obra no setor é de 8% a 9% ao ano, teríamos
uma flutuação da ordem 1.600 empregados/ano; ora, só o Posto
Escola do Senac, na Avenida Brasil, já forma 2.000
frentistas/ano, suprindo portanto toda a demanda, com folga,
sendo então desnecessária a abertura de novos PEs no RJ. Por
sinal, a ANP deveria fazer cálculo semelhante nos demais Estados
brasileiros, consultando os respectivos Senacs”, sugeriu.
Membro da Comissão de Minas e Energia da Câmara, o deputado
federal Simão Sessim protagonizou a fala mais contundente da
audiência pública. “Vim de Brasília para tentar levar para lá as
opiniões e sugestões acerca de um tema tão polêmico e difícil de
interpretar. O que nos preocupa nessa audiência é que nossa
posição é diferente de todas – e estamos no limiar de uma
discussão bem acima desta aqui, que é a discussão sobre o Código
Brasileiro de Combustíveis. Para nós, esta é uma discussão
preliminar; para vocês, é definitiva”, afirmou Sessim,
oferecendo para tema de reflexão uma pergunta: “para quê e por
que o Posto Escola?”, provocou.
O deputado relembrou, então, que a regulamentação surgiu “depois
de uma discussão memorável na Câmara”, em audiência pública com
o então diretor-geral da ANP David Zilberstajn. “Naquele
momento, a Revenda, diante do fantasma da verticalização,
entendia que o tema deveria ser amarrado numa Portaria da ANP as
condições já previstas na Lei 9478”, recordou Simão Sessim, para
então demonstrar seu descontentamento com a permanência desse
‘fantasma’ nas atuais discussões.
Solução pode vir ‘de cima’
“Li todas as sugestões e verifiquei que há uma preocupação
de ambos os lados, não exatamente com o Posto Escola, mas sim
com o fantasma da verticalização”, disse o deputado, adiantando
que, se o impasse persistir, talvez venha a ser solucionado ‘por
cima’, pelos parlamentares, através do futuro Código Brasileiro
de Combustíveis. “Quem dá o perfil da legalidade é o Congresso,
e tal perfil já foi explicitado com a Lei 9478. E afinal, se
temos entidades de ensino profissionalizante como o Senac e o
Cefet, a título de quê uma distribuidora estaria tão interessada
em montar Postos Escola?”, alfinetou.
“Não gostei das exposições feitas aqui, hoje”, disse Sessim.
“Esta é posição de quem quer acabar com o grande fantasma que é
o esmagamento da pequena empresa por quem não está se
conformando ainda com a utilização dos instrumentos existentes
na política econômica nacional. Não que eu queira defender um
lado — quero é respeito, por parte de quem pretende participar
deste setor tão importante da economia brasileira”, avisou o
deputado.
Exploração de trabalhadores
As intenções verticalizadoras das Companhias foram atacadas
também por parte dos trabalhadores. Frentista há 28 anos,
Eusébio Pinto, da Federação Nacional dos Empregados de Postos
Revendedores, confirmou a existência de muitas situações de
exploração de mão-de-obra em Postos Escola, com os “alunos”
recebendo muito pouco – ou mesmo nada, por serem “bolsistas”.
Igualmente, criticou a proposta de abertura de novos PEs pelas
distribuidoras, uma vez que o mercado de trabalho não seria
suficiente para absorver tantos “frentistas formados”. E
questionou: “Como se pode fazer um Posto Escola sem nenhuma
perspectiva de colocação dos alunos no mercado de trabalho?”.
[Matéria publicada na Edição nº 70 do JORNAL DO SINDESTADO-RJ /
maio de 2005]