Editorial
Tubarões insaciáveis
Por Ricardo Lisbôa
Vianna,
presidente do SINDESTADO-RJ
No imenso mar que é o mercado brasileiro de combustíveis, o
Revendedor a todo instante se vê na condição de um frágil
náufrago agarrado uma tábua, desesperadamente tentando
sobreviver enquanto ao seu redor giram, insaciáveis, os tubarões
representados pelas grandes distribuidoras, só esperando o
momento para o ataque certeiro e mortal. Diga-se, a bem da
verdade, que esse mar oferece também diversos outros perigos,
tais como governos de imenso apetite tributário e pouca
fiscalização; concorrência desenfreada e, muitas vezes, suicida,
entre colegas da Revenda; e ainda o incessante surgimento de
leis, resoluções e portarias dos mais variados órgãos, criando
novas exigências e, conseqüentemente, cada vez mais despesas
para o empresário. É, enfim, um mar revolto e extremamente
perigoso este, onde flutua o nosso náufrago.
Mas falemos dos tubarões. Ou melhor, das distribuidoras. Elas
são realmente insaciáveis: estão todo o tempo, há anos e anos,
insistindo em avançar sobre o segmento da Revenda, num cerco que
parece ser interminável. Mesmo com a Constituição Federal
estampando com clareza a diferença entre Revenda e Distribuição,
e mesmo existindo a Lei 9478, as companhias insistem, quase que
debochando das autoridades, em se fazer de desentendidas. Nunca
estão satisfeitas com seus lucros astronômicos. Nunca. Por mais
que fechem cada exercício com mais e mais lucros, elas
simplesmente estão decididas a destruir a categoria dos
Revendedores, tomando toda a cadeia de comercialização para si –
como infelizmente já conseguiram fazer em outros países, é bom
lembrar.
Os exemplos são tantos e tamanhos que nem convém enumerá-los
todos aqui. Basta destacar iniciativas como a de fornecer – como
era mesmo a desculpa? – “atendimento diferenciado” para as
frotas de caminhões, e lá vieram monstrengos como o malsinado
projeto Cais, da BR, numa clara, límpida e cristalina invasão de
competências. E isto sem falarmos nos “dealers” e
“administradores” de Postos, que nada mais são que marionetes
nas mãos das companhias.
Agora, mais recentemente, vem ganhando embalo a proposta
“generosa e desprendida” de espalhar Postos Escola por todo o
país. Não fosse o óbvio cinismo das distribuidoras, algum
estrangeiro desinformado que aqui chegasse seria tentado a
pensar que estamos num verdadeiro paraíso, com gigantescas
multinacionais, repentinamente, interessadas em custear o ensino
profissionalizante de milhões e milhões de brasileiros, a tal
ponto de “fazerem o sacrifício” de investir na aberta de dezenas
de milhares de Postos de Norte a Sul do país, só para o
treinamento de frentistas.
É um verdadeiro achincalhe. Trata-se de evidente tentativa de
invasão da Revenda pelas distribuidoras, com a desculpa da
formação e treinamento de mão-de-obra. Nem há mercado de
trabalho para absorver tamanha multidão de frentistas. Aliás,
fica aqui uma sugestão: uma vez que se acaba de descobrir
tamanha generosidade de propósitos por parte das Companhias – já
que elas estão de tal forma interessadas em auxiliar o Brasil –
o Governo Federal bem que poderia transferir para elas,
distribuidoras, e agora mesmo, o custeio das redes públicas de
ensino, em todos os níveis, desde o pré-primário até os cursos
técnicos e as faculdades. E por que não? Afinal, o dinheiro das
poderosíssimas Companhias não é tão farto quanto sua
generosidade para com o povo brasileiro?
Fazemos tais considerações em função da recente audiência
pública na ANP sobre a polêmica que envolve os Postos Escola. Se
for tão necessário assim treinar frentistas, temos o grande
exemplo do Posto Escola do Senac, no Rio, que há quarenta anos
realiza tal trabalho, com brilho e esmero. Não é preciso, de
forma alguma, que nenhuma distribuidora sequer pense em querer
abocanhar tal segmento. De qualquer forma, a audiência foi feita
e a sorte está lançada. Esperamos que o resultado de todo esse
processo de discussões públicas seja a regulamentação da
atividade de Posto Escola, impedindo que as distribuidoras se
utilizem desta atividade para descumprir a legislação do setor,
praticando disfarçadamente a verticalização.
[Editorial da Edição nº 70 do JORNAL DO SINDESTADO-RJ /
maio de 2005]